São Paulo, 8 de fevereiro de 2010.
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Rir é um ótimo remédio


Melhor Remédio
Uma internação, por mais comum que seja a doença a ser tratada e mesmo quando os riscos à saúde são mínimos, é sempre motivo de tensão, tanto para o paciente quanto para seus familiares. O ambiente hospitalar, normalmente frio, impessoal, torna as horas à espera da alta intermináveis. A simpatia e atenção dos profissionais - médicos e enfermeiros - não são suficientes para amenizar a dor e a tristeza de quem passa por um problema de saúde.

É nesse momento que gestos de amor, carinho e atenção fazem a diferença. Se vierem com bom humor e alegria então, acabam contagiando. O ator norte-americano Robin Williams mostrou recentemente nos cinemas a história verídica do médico Hunter Adams, um homem que encontrou na Medicina uma maneira de ajudar os outros. Mas de uma forma diferente, proporcionando-lhes momentos agradáveis para que esquecessem a dor e o sofrimento. Vestido de palhaço, com sapatos enormes e um grande nariz vermelho, ele levava alegria a todos.

Patch Adams, de quem trata o filme, encontrou muita resistência no meio médico ao adotar esse método, mas não foi o que aconteceu com o Dr. Ispagueti Saracura. Ao contrário, ele foi muito bem recebido no Hospital Estadual Brigadeiro, onde diverte não só os internos, mas os acompanhantes, familiares e funcionários. É o trabalho dele e a importância dos voluntários que você vai ficar conhecendo nesta edição. Confira também a Programação Paulista Cultural Outubro/Novembro. Aproveite para mandar seu recado ou opinião através do nosso e-mail: redacao@paulistanet.com.br


Melhor Remédio
Pílulas de humor


Há algum tempo foi comprovado cientificamente que rir é um ótimo remédio. O bom-humor não só torna os dias melhores, como também acrescenta alguns anos de vida aos bem-humorados. Até o vírus da gripe encontra maior dificuldade em atingir aqueles que são alegres por natureza. E quando falamos de doenças e da baixa resistência que elas provocam no organismo, vemos o quanto um sorriso espontâneo pode fazer diferença.

O filme Patch Adams - O Amor é Contagioso, com Robin Williams no papel principal, conta a história verídica de Hunter Patch Adams, um médico que ao adotar procedimentos terapêuticos nada ortodoxos, se deparou com diversos obstáculos por parte daqueles que criticavam sua alegria excessiva e não acreditavam nos resultados que o método poderia proporcionar. Patch Adams foi o pioneiro na idéia de que as pessoas devem ser tratadas e não apenas as doenças, e é parte da inspiração do Dr. Ispagueti Saracura, que há quase um ano leva alegria a adultos e crianças no Hospital Estadual Brigadeiro.

O Dr. Saracura é na verdade Roberto Ravagnani, um projetista elétrico e administrador de empresas de 33 anos, que há 15 anos optou pela área social. Começou por acaso, quando um amigo o convidou a dar aula de elétrica, como voluntário, em uma favela, no município de Ilha Solteira (SP). Acabou sendo convidado para trabalhar num projeto do Estado, na Capital, também com crianças, e não parou mais de atuar nesse segmento, sempre administrando e criando novos planos. Infelizmente a área social é vista de uma forma antiga. É preciso fazer algo diferente, acredita Ravagnani.

Passou também pela administração de uma entidade que cuida da reabilitação de crianças portadoras de deficiência. Por um ano Ravagnani ficou afastado da área social, quando esteve na administração de uma empresa de segurança, período considerado por ele o pior de sua vida. A intenção era voltar para a área social, mas não sabia bem o que fazer. Sempre quis estar fazendo coisas diferentes, estar inovando. E foi o que ele conseguiu.

O Dr. Ispagueti Saracura foi criado por Roberto Ravagnani, idealizado para a área de saúde. O Dr. Saracura tem uma identidade, uma personalidade formada, explica. O Circus of Clowns, que existe há aproximadamente 15 anos e desenvolve esse trabalho por toda a Europa e Estados Unidos, foi o ponto de referência para o personagem. No Brasil, existem os Doutores da Alegria, que trabalham apenas com crianças, enquanto o Dr. Saracura diverte principalmente os adultos. Há dias em que nem consigo chegar à pediatria, diz.

Caminhando pelo hospital, o médico chama a atenção de pacientes e acompanhantes, arrancando sorriso de todos. Apesar disso, a obrigação não é exclusivamente a de fazer rir. O objetivo é fazer com que o paciente sinta-se melhor. Às vezes uma simples conversa, a presença, a atenção, faz dissipar o medo e a solidão de quem está internado por dias ou meses. Mas se for possível provocar o riso, melhor.


Trabalho voluntário


Além de Roberto Ravagnani, existem outros voluntários no hospital, como os integrantes do grupo Terapia do Riso, que trabalha só com crianças, levando a elas personagens de histórias infantis - Branca de Neve, princesas, super-heróis, palhaços e outros. Há ainda aqueles que ensinam artesanato, fazem recreação com as crianças, contam histórias, lêem jornais, livros etc. E em breve será implantada musicoterapia na UTI Neo-natal. São cerca de 40 voluntários cadastrados que se revezam de segunda a sexta-feira, das 7 às 19 horas.

O Hospital Brigadeiro é cadastrado no Centro de Voluntariado de São Paulo, que envia pessoas interessadas em prestar esse serviço. Muitas que aparecem direto são orientadas a procurar o Centro para treinamento. Um voluntário, como muitos pensam, não faz seu próprio horário, aparece quando quer, segundo sua vontade. É preciso seguir regras, ser disciplinado e adaptar-se às situações. Existe o trabalhador voluntário, como explica Roberto, com horário de entrada e saída. Ele preenche um relatório diário das atividades e se faltar precisa justificar a ausência.

O projeto de Ravagnani foi aceito de imediato, mas ele queria executá-lo à noite ou nos sábados e domingos. Informado sobre os horários disponíveis, decidiu aceitar trabalhar um dia por semana. Acabou gostando e hoje vai ao hospital três vezes por semana, sempre à tarde. Segundo Carmen Oliveira, coordenadora do trabalho voluntário, os pacientes ficam na ex-pectativa de chegada do Dr. Saracura. Daí a responsabilidade do voluntário, ressalta. Ela explica que o doente fica esperando quando é programada alguma atividade. Se o voluntário não vem, deve avisar também o doente.

O diretor do hospital, Dr. Giovani Di Sarno, sempre apoiou o trabalho voluntário, garante Carmen. E a partir dessa aprovação, a iniciativa foi apresentada a toda equipe médica. A experiência tem sido válida e os benefícios são visíveis. Carmen conta que os pacientes tristes, amuados, ficam mais animados. Ela lembra que no primeiro dia de trabalho do Dr. Saracura, uma criança estava chorando e os enfermeiros não conseguiam achar sua veia. Ele chegou, começou a brincar e ela nem percebeu os demais procedimentos da enfermagem. Quando o Dr. Saracura saiu, a criança já estava rindo.

Às vezes o próprio médico pede a presença do Dr. Saracura para amenizar algum problema - um paciente nervoso, por exemplo. Por outro lado, um procura não interferir no trabalho do outro, não entrando no quarto quando o outro está. A relação com os profissionais é fantástica, diz Ravagnani. É difícil na arte do clown (palhaço) fazer alguma coisa sozinho. O comparsa acaba sendo o próprio paciente ou o profissional, um enfermeiro ou até um médico.


Dedicação e emoção


Ravagnani atua também no Hospital do Servidor Público Estadual, nos setores de pediatria e oncopediatria. Lida com a morte todos os dias. Já chegou a chorar, mas nunca na frente de ninguém. É profissional e tem que segurar a emoção. Ele lembra que a primeira semana foi muito difícil, mas vê hoje o trabalho como terapia e passou a dar mais valor à vida. Instintivamente acabou aprendendo a fazer o que um ator faz, assumir o personagem. Existem duas coisas: o Roberto, que é meu empresário, e aqui dentro eu sou o Dr. Ispagueti. Todos esperam me ver falando besteiras e com uma cara boa.

Apesar de voluntário, Ravagnani investe em sua qualificação como qualquer profissional, tentando se aprimorar. Nas duas primeiras semanas no hospital, os pacientes queriam conversar sobre suas patologias, suas doenças, e ele não conhecia. Foi então ler, estudar um pouco de cada especialidade para saber o básico e poder conversar. Está agora aprendendo mágica, para oferecer algo a mais aos doentes. Tem que ter um lado emocional envolvido nessa história para se trabalhar como voluntário. Tem que haver dedicação.

Outra atividade realizada por ele, também caracterizado como Dr. Saracura, é voltada à educação para saúde em escolas públicas da periferia, abordando temas como higiene, drogas, doenças sexualmente transmissíveis e outros, através de recreação, histórias, brincadeiras e piadas. Esse trabalho traz alguma renda quando realizado em escolas particulares, mas, assim como a visita a alguns hospitais particulares, acontece esporadicamente.

Desde que começou com o projeto do Dr. Saracura, Ravagnani vem buscando patrocínio, porém sem êxito. Muitos gostam da idéia, mas quando ela se transforma em custo, desistem. Isso, entretando, não fez com que ele abandonasse seu ideal. Não é uma coisa fácil (a falta de remuneração), mas depois que comecei não consigo mais largar. A doação de tempo e trabalho, e a abnegação com que muitos se dedicam ao próximo, tem se mostrado essencial em algumas áreas. E a da saúde é, sem dúvida, uma que necessita dessa atenção. Afinal, como acreditava Dr. Hunter Patch Adams, há doenças da alma, como a solidão e o medo, que não podem ser curadas com uma simples pílula, a não ser que ela seja feita de amor, e por vezes coberta de humor.



Contatos/Dr. Ispaguetti Saracura - Roberto Ravagnani - Tel: 9913-5278

Serviço Social Hospital Brigadeiro - Coord. Serv.Voluntariado - Carmen/Tânia -Tel: 284-9156

Centro de Voluntariado de SP - Avenida Paulista, 1313 - Tel: 284-7171

Luciana de Melo
lucianademelo@paulistanet.com.br


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